quarta-feira, abril 15, 2015

TPM

Chocolate preto, amo você.
Padaria do largo com broa de mel do dia, amo você.
Paracetamol de efeito rápido, amo você.
Leggings largas, amo vocês.
Corrector de olheiras, amo você.

Colegas fêmeas que também chegaram hoje com má cara e dores de cabeça, bufando e preferindo ter ficado no sofá todo o dia, amo vocês.

Local de trabalho cheio de mulheres onde nunca falta quem tenha um evax, um benuron, lenços de papel e bolachas na gaveta, amo você.

segunda-feira, abril 13, 2015

História de um livro

Comprei a biografia do escritor e dissidente cubano Reinaldo Arenas - "Antes que Anoiteça" - há quase 14 anos e sei disto porque tenho o hábito de escrever nos livros a data e o lugar, depois de os comprar. O livro mexeu muito comigo. Tinha 24 anos, estava a passar uma fase de alguma turbulência emocional e o sufoco daquele homem buliu com todas as células da minha alma. Levei-o para uma viagem à Grécia, da qual não esperava muito senão afastar-me um bocado da rotina, porque fui com os meus pais e os amigos deles. Acabei por me divertir bastante nesse generation gap e li o livro tão depressa que fiquei sem mais nada para ler a viagem toda.


Depois, o "Antes que Anoiteça" ficou algures na casa dos meus pais e nunca mais o reli, pelas memórias de agitação interior que me trazia. Até agora. Há uns tempos, o António escreveu no facebook que procurava avidamente esse livro, sem o conseguir encontrar, se alguém o tinha, se sabia onde o arranjar. E o Reinaldo Arenas voltou a entrar no meu caminho. Sabia que o tinha, mas onde? Revirei todas as estantes de casa dos meus pais e demais lugares de arquivo bibliotecário. Os meus pais são leitores tão intensivos quanto eu e há centenas de livros naquela casa. Passei a pente fino as estantes do escritório. Levei uma comitiva de irmã, filha e sobrinha ao sótão onde tenho uma dúzia de caixotes com livros. Nada.


Andei intrigada umas semanas. Onde diacho andava o livro? Um dia, por acaso, dei com alguns livros meus num armário da adega - ou o lugar de arrumos genéricos a que chamamos adega. Estavam lá algumas pérolas do meu passado, que apertei nas mãos com saudades: Florbela Espanca. Natália Correia, Manuel da Fonseca, Fernando Namora, Camilo Castelo Branco - my preciooouuus! E, lá no meio, a cara do Javier Bardem, que fez de Reinaldo Arenas na adaptação do livro ao cinema. É uma edição de bolso da Asa, editora que fez colecções de bolso que acumulei com ardente paciência, como a Pequenos Prazeres.


Enviei uma foto ao António, ainda queres? E ele que sim.



Eu agradeço, claro, sem saber muito bem como agradecer, porque este deve ser o livro que mais procurei e que menos encontrei - disse o António.


Antes de lho enviar, atrevi-me a reler, quase 14 anos depois. Diz que as peças de arte amadurecem, mas claro que nós é que amadurecemos e tiramos sempre mais coisas delas, ou coisas diferentes. Quase 14 anos depois, o Reinaldo mexeu comigo outra vez, mas de outra maneira. Mais limpa, poderosa, empática. A clareza e a força da narrativa. A intensidade da história. O perdão e a conciliação permanente com a vida - quase nunca podemos escolher o que vivemos, mas quase sempre podemos escolher como o vivemos. Mas aquele livro já não era meu quando comecei a relê-lo, já era do António e então endossei-o devidamente. 





Foi comigo numa viagem a Lisboa, onde o li quase todo. E enquanto esperava pelo comboio de regresso, parei num daqueles outlets de livros que há nas estações de comboio e nos quais já adquiri grandes títulos, sem danos financeiros colaterais, incluindo muita literatura brasileira. E eis que lá estava outra vez o Reinaldo Arenas, cruzando-se comigo. "Celestino antes da madrugada", que escreveu em 1982 e conseguiu enviar clandestinamente para publicação fora de Cuba. 4 euros, tão pouco por tanta riqueza.




Ao pagar, diz-me a senhora da caixa que criou aquela prateleira de escritores latino-americanos porque chegavam tantos livros bons que ela achou que mereciam um lugar próprio. E que pusera aquele livro do Reinaldo Arenas no topo da pilha porque vira há pouco na televisão o filme "Antes que Anoiteça" e percebeu que não sabia nada daquele autor, tendo ficado a desejar muito lê-lo. Foi um lindo momento quando eu tirei o "Antes que Anoiteça" da carteira e trocamos as duas um enorme sorriso de leitoras satisfeitas.

De maneira que, Reinaldo, voa agora para as mãos do António. A todos nós, de alguma forma, a escrita nos salva.